Cinema & TV

Sucesso em “Justiça”, Pedro Nercessian comenta sobre as maldades de seu personagem na trama: “Toda história tem um ponto de vista diferente”

Paralelo ao trabalho na tevê, o ator está presente no cinema no filme "Canastra Suja" e no teatro com a peça "Da Carta ao Pai", na qual também dirige e produz. Sobre a múltipla carreira cultural, Pedro avaliou que está mais difícil realizar eventos sociais em tempos de crise política. "O impeachment marca uma era que acabou"

Publicado em 21 de setembro de 2016 | Por Julia Pimentel

De fato, a carreira de ator não é nada fácil. Embora possa parecer mágico dar vida a personagens icônicos e admiráveis, interpretar alguém com uma personalidade tão diferente da sua pode significar uma missão bem complicada. E é justamente por isso que Pedro Nercessian está passando. No ar em “Justiça” (Rede Globo), o ator é Téo Ferraz, um jovem com atitudes condenáveis e ideologias bem diferentes das seguidas por Pedro. Na minissérie, Téo Ferraz transita por várias histórias. Além de ser filho de Antenor Ferraz (Antonio Calloni), que foi o responsável pelo atropelamento de Beatriz (Marjorie Estiano), o jovem também teve um relacionamento com Elisa (Débora Bloch) enquanto Isabela (Marina Ruy Barbosa) estava viva e foi o responsável por fazer e divulgar o vídeo íntimo com Vanessa (Giovana Echeverria), o que acabou fazendo com que a moça se jogasse da janela. Enfim, um personagem cheio de emoções. Ao HT, Pedro Nercessiam confessou que foi bem difícil criar a personalidade do Téo. “A construção desse personagem surgiu a partir do texto, e eu construí uma linha ideológica dele. Mas foi muito difícil criar esse cara que tem atitudes absurdas. Só que eu acho que ninguém é tão mau caráter o tempo todo. Eu acho que pessoas assim também fazem coisas boas, como puxar a cadeira do restaurante para a mulher, por exemplo. Ninguém é nem ruim e nem bom o tempo todo”, defendeu seu personagem.

Pedro Nercessian em "Justiça" (Foto: Reprodução)

Pedro Nercessian em “Justiça” (Foto: Reprodução)

Com um personagem envolvido em tantas questões que a minissérie apresenta, Pedro destacou a importância de tratar da justiça em tempos de cólera. Mas, como ressaltou o ator, há uma diferença muito importante entre falar e agir de uma nova forma. “O primeiro passo é abordar e discutir esses temas na sociedade. Mas isso é só um começo. Eu acho que questões como racismo e machismo já são, pelo menos, mais debatidas. O próximo passo é uma mudança real de comportamento após a evolução do pensamento. Porém, sem dúvidas, é muito importante que já exista essa onda de reflexão, principalmente nas escolas e na tevê. Quanto mais a gente discute esses assuntos, menos nós jogamos para debaixo do tapete”, argumentou Pedro que destacou a coragem da autora Manuela Dias em retratar temáticas como estupro, eutanásia e racismo na minissérie “Justiça”.

E por falar nos diferentes enredos que a minissérie aborda e no formato escolhido pela autora em que todas as narrativas se cruzam em histórias simultâneas, Pedro Nercessiam contou que está adorando o resultado. Mas, como revelou, fica ainda mais difícil para o ator. “A gente tinha que fazer um dever de casa muito maior antes de ir para a gravação. Neste formato, a gente grava uma mesma cena que vai ao ar em diferentes ângulos e em várias histórias. Em cada dia, uma mesma imagem pode ter sentidos diferentes. Mas o resultado está sendo incrível. Eu acho que o público fica mais instigado, curioso e querendo entender o que se passa. A meu ver, é justamente esse o cerne da questão: toda história tem um ponto de vista diferente, não existe um lado só certo e nem um só errado”, opinou Pedro que relacionou esse fator às atitudes de seu personagem. “As pessoas odeiam o Téo e as atitudes fazem dele quase que um vilão. Mas eu acho que tudo tem um real motivo. Ele, por exemplo, nasceu e cresceu em um ambiente machista com um pai totalmente desrespeitoso. E, em uma sociedade naturalmente machista, ele acha que o que faz não é tão errado assim”, justificou.

"Toda história tem um ponto de vista diferente, não existe um lado só certo e nem um só errado" (Foto: Sérgio Baia)

“Toda história tem um ponto de vista diferente, não existe um lado só certo e nem um só errado” (Foto: Sérgio Baia)

Apesar de Téo Ferraz estar ocupando um grande espaço emocional e temporal na vida de Pedro Nercessiam, o ator ainda nos contou que segue com outros projetos na carreira. No cinema, Pedro estreia o longa “Canastra Suja” em 2017, com direção de Caio Sóh. “O enredo gira em torno de uma família e a falta de comunicação entre eles. São pessoas que se amam muito e que buscam se entender pessoalmente, o que dificulta e impossibilita uma comunhão coletiva. Esse filme mostra que o amor não é suficiente para manter as relações e como os novos valores e a tecnologia podem impactar uma convivência. Na nossa atual sociedade, um casal não precisa mais ficar décadas juntos só para manter uma família tradicional e estruturada”, explicou o ator que acredita que esteja mais difícil “tolerar o diferente” nos dias de hoje. “Nós perdemos os valores que tínhamos e não conseguimos nos acostumar com os novos”, pontuou.

O ator também está no elenco do filme "Canastra Suja" (Foto: Reprodução)

O ator também está no elenco do filme “Canastra Suja” (Foto: Flora Negri)

E não é só. Pedro Nercessiam nos contou que, apesar de toda a correria com os trabalhos paralelos, o teatro é uma arte que nunca fica de fora da carreira. Apaixonado pelos palcos, o ator ainda se divide na função de diretor e produtor. Atualmente com a peça “Da Carta ao Pai”, que voltará em cartaz em breve, Pedro nos disse que assumir a direção simultânea é uma tarefa “natural”. “Eu não me considero um diretor. Para mim, eu dirijo a partir da visão do ator que está em cena, o que deixa o processo muito mais natural. A partir do momento que eu comecei a fazer isso, eu passei a entender muito mais o meu trabalho como ator, o que ajudou muito. Desse modo, eu descobri que o ator cobra uma resposta do diretor para solucionar a angústia que ele sente. Eu passei a entender bem mais como funcionam esses dois lados quando eu me coloquei no papel do outro”, disse.

Além de atuar, Pedro também dirige peças de teatro (Foto: Sérgio Baia)

Além de atuar, Pedro também dirige peças de teatro (Foto: Sérgio Baia)

Com a produtora, Pedro Nercessiam também amplia os seus horizontes de conhecimento e relação. Desta vez, a solidariedade e a compreensão são as palavras que definem a experiência do ator. “Nossa missão é levar espetáculos para áreas em que a arte não chega. Nós fazemos há oito anos este trabalho que é social, mas não é voluntário. Assim como todos, nós também precisamos saciar as nossas necessidades básicas. Então, com a ajuda de empresas privadas, nós levamos a arte para pessoas que não teriam acesso”, contou Pedro que se disse apreensivo com os rumos do atual governo e do panorama cultural brasileiro. “Quem dependia do poder público para fazer um trabalho social para quem realmente precisa não está mais tendo muito apoio. Mas, em relação a tudo isso, eu prefiro ver de uma forma bem racional. Eu tento me desfazer dessa paixão que cega muitas pessoas e analisar a situação friamente. É muito triste ver tudo isso, ainda mais para quem acompanha a miséria de perto. O impeachment marca uma era que acabou”, analisou o ator Pedro Nercessian que prefere se preservar nas redes sociais quando o assunto é política.

 

Pesquisas relacionadas