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Exclusivo! Andreia Horta arrebata o coração de Gramado com a primeira exibição do filme “Elis”: “Foi uma expansão como artista e como mulher”

Atriz, que acaba de completar 33 anos, praticamente incorporou o espírito da cantora gaúcha com gestos e expressões que pode confundir até mesmo os fãs mais fervorosos. "Foi preciso viver Elis"

Publicado em 30 de agosto de 2016 | Por Leonardo Rocha

Protagonista do primeiro longa-metragem que concorre ao Kikito a ser exibido no Festival de Cinema de Gramado, Andreia Horta arrebatou o coração da plateia gaúcha logo na primeira sessão da cinebiografia totalmente dedicada à cantora Elis Regina, em “Elis”, do estreante diretor Hugo Prata e que concorre nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz em Papel Principal. E não é para menos. A artista, que acaba de completar 33 anos, se dedicou bastante a essa aventura. Ela se dedicou tanto, que logo na cena de abertura da produção é possível questionar se quem está na telona é de fato Andreia Horta ou a saudosa e eterna Pimentinha ao interpretar o intocável clássico de Belchior, “Como Nossos Pais”.

Andreia Horta como Elis Regina (Foto: Divulgação)

Andreia Horta como Elis Regina (Foto: Divulgação)

A produção prova, mais do que nunca, que se há uma coisa que o cinema brasileiro aprendeu a fazer nos últimos anos foram boas cinebiografias. No entanto, Hugo Prata se negou a definir o trabalho como uma obra completa sobre a passagem da artista, mas um verdadeiro recorte de momentos que considerou importantes para contar sua história. “Claro que muitas passagens e figuras importantes da vida dela, como Tom Jobim e Milton Nascimento, ficaram de fora. Tivemos duas horas para contar a trajetória de uma personagem muito rica e controversa. A gente estava querendo focar exatamente nisso: de não ficar só abraçado ao mito, ao talento dela. Seria fácil só enaltecê-la. A gente queria se aproximar um pouco da mulher”, explicou ele.

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O diretor Hugo Prata e Andreia no tapete vermelho do Festival de Gramado (Foto: Edson Vara)

O diretor Hugo Prata e Andreia no tapete vermelho do Festival de Gramado (Foto: Edson Vara)

Tanto que o lado humano de Elis fica tão exposto que, apesar da mulher forte que existiu em cima dos palcos, é possível observar momentos de desequilíbrio, depressão, alcoolismo e até mesmo o polêmico envolvimento da cantora com o mundo das drogas – negado por décadas pelos mais próximos da artista. Por isso, Prata ainda destacou que tentou não ficar atrelado apenas à vida pessoal, mas também quis mostrar a importância da homenageada enquanto mulher, no mercado de trabalho extremamente machista da época e as difíceis relações que teve com o pai, os maridos e a indústria fonográfica. “Se hoje já é difícil para as mulheres, imagina naquela época”, afirmou o diretor, que ainda elegeu a cena final, quando a cantora morre, como uma das mais difíceis da produção. “Tentei ser delicado numa situação violenta. O João Marcelo (Bôscoli, filho dela) estava presente nessa hora, mas resolvi tirar isso do filme, porque seria demais”, avaliou ele, que ainda afastou qualquer possibilidade de “Elis” se tornar uma futura minissérie global. “Isso não vai acontecer. Nós fizemos uma obra fechada, que exigiu muito da Andreia e de toda a nossa equipe. O trabalho está pronto e não vai se estender para outros meios”, encerrou a discussão.

Andreia Horta (Foto: Edson Vara)

Andreia Horta (Foto: Edson Vara)

No longa, a Pimentinha é retratada a partir da chegada à cidade do Rio de Janeiro, em 1964, quando tinha 19 anos de idade, vinda com o pai do Rio Grande do Sul. Embora já fosse popular na cidade natal, em Porto Alegre, Elis ainda era uma cantora sem expressão nacional. Foi no Rio que ela se tornou, a partir de 1965, uma das maiores cantoras do Brasil. Ao longo da história, o filme transita por diversas fases da vida de Elis: o início da carreira, o estouro nacional ao vencer o primeiro Festival de Música Popular Brasileira, a parceria com Jair Rodrigues, interpretado pelo ator Ícaro Silva, o primeiro casamento com Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) o segundo com o músico César Camargo Mariano (Caco Ciocler) e a relação com os três filhos. Um dos momentos mais especiais da trama fica presente na passagem da artista pela ditadura militar quando cantou o Hino Nacional em um show nas Olimpíadas do Exército. Fase em que o público passou a hostilizá-la em seus próprios shows.

Equipe do filme "Elis", em Gramado (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)

Equipe do filme “Elis”, em Gramado (Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto)

Agora, falando sobre a estrela do filme, impregnada pelo universo Elis, Andreia Horta citou, por diversos momentos, trechos de músicas emblemáticas da cantora durante a entrevista. A atriz confessou que teve o auxílio de três preparadores para estrelar o longa. Apesar de todas as músicas serem entoadas pela voz da cantora gaúcha, Andreia teve que cantar todas as canções no set de gravação. Com um gestual impecável, expressões e olhares que chegam a confundir, ela revelou de onde veio tanta inspiração. “Eu era louca por ela. Com 14 anos, cortei cabelo joãozinho”, relembrou. “Esse trabalho me deixou fazer perguntas bem importantes para o meu ofício. Todos sabem que eu não sou a Elis. Ela morreu em 1982, eu nasci em 1983, nossas matérias nunca se cruzaram. O que foi me acalmando era a vontade de criar, porque no presente a mente é diferente”, complementou, explicando que não trata-se de uma imitação.

“Foi preciso viver Elis. Foi um mergulho profundo e um voo alto, mas sobretudo uma dança da carne com o espírito. Eu trabalho como atriz desde criança e de repente eu tive uma chama acesa muito grande que era o espírito da Elis. Tudo o que a gente tem dela está muito perto da nossa memória”, disse ela, que ainda elegeu a interpretação da cantora  em “As Curvas da Estrada de Santos”, de Roberto Carlos, como sua música favorita na voz de Elis.

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No entanto, para personificar uma das maiores vozes do Brasil, Andreia passou por uma preparação de cinco meses, com fonoaudiólogo, preparador de corpo e vocal. Mesmo sem ter a voz nas cenas de show, foi preciso se aprofundar nos vocalizes para que as interpretações parecessem reais. “Eu não sou cantora, só canto lá em casa. A voz que valeria, no final, era a da Elis, mas eu tinha que preencher esse corpo todo, com energia, a veia do pescoço precisava saltar junto, ela chegava a dizer oito frases num fôlego só”, destaca. Nos ensaios, Andreia gravava com diferentes músicos, que também foram “dublados” na pós-produção. E de fato os cuidados com o sincronismo entre a imagem de Andreia e a voz de Elis são espetaculares.

Andreia Horta no filme "Elis" (Foto: Divulgação)

Andreia Horta no filme “Elis” (Foto: Divulgação)

Ainda segundo Horta, nos últimos tempos ela tem interpretado na TV e no cinema várias mulheres fortes, com dúvidas, angústias, medos e, também, muita coragem. “Surgiram muitos papéis corajosos no meu caminho. Aí parece que eu sou também”, disse ela, aos risos, referindo-se principalmente a Elis, Joaquina, da minissérie da Globo “Liberdade, Liberdade”, Maria Clara, de “Império”, e Alice, papel-título da série da HBO que a atriz protagonizou em 2008.

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Ela, que anteriormente já havia feito cinema com a franquia de “Muita Calma Nessa Hora”, teve sua primeira experiência em um festival. E estreou em grande estilo, já que o Festival de Gramado é considerado um dos mais importantes da América Latina. “Olha, vivê-la foi uma expansão como artista e como mulher, porque é um personagem que é um labareda e tem muita força. E pra você ser o cavalo que leva isso você precisa estar preparada emocionalmente, corporalmente e de todas as formas. Eu acho que cresci muito como artista e como pessoa. E como é minha primeira em um festival, eu assisti à sessão mais prestando atenção à reação do público. Foi divertido. Mas parece que o pessoal gostou bastante”, disse ela, orgulhosa. E de fato, as palmas no final da sessão serviram para coroar com louvor o árduo trabalho da atriz e de sua equipe.

Cena do filme (Foto: Divulgação)

Cena do filme (Foto: Divulgação)

Tanto trabalho também exige uns dias de folga, não é mesmo? Depois de emendar tantas personagens no cinema e na televisão, a atriz garantiu que agora pretende tirar um tempinho de folga. “Eu acabei de entrar de férias, porque ‘Liberdade, Liberdade’ acabou agora e estamos trabalhando na divulgação de ‘Elis’. Daqui eu vou para Portugal para lançar a minissérie e agora eu quero descansar um pouquinho”, completou a atriz, que com um sorriso no rosto demostrou o sentimento de dever comprido. A estreia no circuito comercial de “Elis” está prevista para o dia 24 de novembro em todo o Brasil.

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