Teatro & Pensata

Terrorismo, poesia e conflitos pessoais marcam a história de “Céus”, peça dirigida por Aderbal Freire Filho: “A arte não salva um indivíduo, ela educa”

Com Silva Buarque, Felipe de Carolis, que também assina a produção da montagem, Rodrigo Pandolfo, Isaac Bernat e Charles Fricks, a peça com temporada no Teatro Poeira integra franquia que também conta com a peça "Incêndios", protagonizada por Marieta Severo

Publicado em 28 de setembro de 2016 | Por Leonardo Rocha

Um grupo de cinco pessoas da inteligência do esquadrão antiterrorismo é selecionado para tentar impedir que uma catástrofe atinja diversos pontos historicamente importantes para a construção cultural da era moderna. Com a suspeitas de simultâneos ataques à bomba espalhados por diversos continentes, eles são imediatamente levados para uma espécie de alojamento onde além da dura jornada de trabalho ainda precisam lidar com seus próprios fantasmas do passado e se conectar com a vida pessoal de cada um deles. É com esse misto de tragédia contemporânea sobre a civilização atual e a inquietude do processo humano que o diretor Aderbal Freire Filho colocou um olhar brasileiro para a peça “Céus”, escrita pelo libanês Wajdi Mouawad, que segue em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo. Com Silvia Buarque, Felipe de Carolis, que também assina a produção da montagem, Rodrigo Pandolfo, Isaac Bernat e Charles Fricks, a peça integra a franquia que também conta com a peça “Incêndios”, protagonizada por Marieta Severo.

Elenco da peça "Céus" no Teatro Poeira (Foto: Divulgação)

Elenco da peça “Céus” no Teatro Poeira (Foto: Divulgação)

Ao HT, o diretor revelou que não se trata apenas de terrorismo islâmico, mas de uma revolta de jovens que fazem um motim para chamar atenção para uma questão muito pessoal. “É uma peça que, além do terrorismo, que é o tema principal, fala de arte, de beleza e medo. É uma produção contemporânea tanto de conteúdo quanto de forma. É curioso, porque o Wajdi abre espaço para falarmos de uma sociedade que dá lugar para esse terrorismo. Uma sociedade que parece estar passando por uma etapa da civilização onde não sabe para onde vai e que deixa explodir bolsões de barbárie. Essa uma situação que a gente vive o tempo inteiro”, explicou o diretor, salientando que o trabalho vai muito além do que ações islâmicas. “A gente tenta escapar dessa rixa que quase sempre tem um cunho religioso sobre o Oriente e o Ocidente. A peça não fala sobre essa oposição, mas prefere falar dos vários tipos de temores de uma sociedade por conta da falta de atenção e de lugar para os jovens. Atualmente, a juventude parece que ainda não encontrou o seu lugar”, avaliou.

No entanto, o desafio de elucidar enigmas e mensagens cifradas, se complexifica à medida que os agentes se dividem entre duas linhas de investigação, a Islâmica e a Tintoretto — nomeada em referência ao pintor italiano Jacopo Robusti (1518-1594). O duelo entre inteligência e terror proposto pelo autor é enigmático e descartada como motivação para os tais atentados. Tanto que, no final das contas, apesar da visão dura e realista que permeia os confinados, é o raciocínio poético do personagem de Felipe de Carolis que traz amplitude para a solução da questão. “A tentativa de salvar o mundo através da arte e da beleza em um mundo cada vez mais superficial é a forma de trazer a rebeldia de uma juventude para um lugar de paz. A arte constrói um homem melhor. Um ser que tem uma capacidade de discernimento e pensamento muito melhor. Não que a arte salve um indivíduo, mas ela educa”, avaliou.

Aderbal Freire Filho

Aderbal Freire Filho (Foto: Divulgação)

Idealizador das montagens, Carolis conta que decidiu encenar “Céus” à mesma época em que ensaiava “Incêndios” e via, do lado de fora do teatro, as ruas do país pegando fogo com as manifestações de junho de 2013. “A vontade de fazer ‘Céus’ nasce ali, de observar aquele movimento liderado pela juventude, e, ao mesmo tempo, o texto do Wajdi que ia nos mostrando até onde pode ir essa revolta se não olharmos para os mais novos. O fato de os atentados, em sua maioria, serem realizados por jovens entre 25 e 32 anos é assustador, e torna essa peça fundamental”, apontou ele, que ainda comentou o desejo de criar algo que dialogasse com a sua geração. “Eu queria muito fazer uma tragédia contemporânea. E como produtor eu queria criar algo que mudasse a cara do Rio. Acho que ‘Incêndios’ teve muito isso. Já em ‘Céus’, a gente fala sobre uma geração que é a minha. E logo em seguida começaram a surgir, infelizmente, os atentados na França, trazendo à tona toda essa questão.A verdade é que a gente não tem segurança e tem medo o tempo inteiro. Mas pela tecnologia, universo que a gente toca aqui na peça, a gente tem uma rapidez de informação tão próxima que a gente acredita em uma talvez falsa estabilidade emocional. E como artista eu acho que a minha função é falar para a minha geração e levantar as questões que sejam criveis de debates”, ressaltou.

Durante a composição, para potencializar essas leituras, Aderbal fez uma ponte entre o teatro convencional com uma encenação polifônica, moderna e sensorial, com fortes intervenções sonoras de Tato Taborda e cenário de Fernando Mello da Costa, totalmente integrado a um jogo de projeções criados pelo estúdio Radiográfico. E elas conversam diretamente com o espectador. “Nunca havia trabalhado com vídeo, mas aqui ele vem para potencializar um jogo que é sim muito atual, mas que segue tendo como motor os atores, a matéria fundamental do teatro”, disse Aderbal.

Isaac Bernat, Marieta Severo e Silvia Buarque (Foto: Leo Ladeira

Isaac Bernat, Marieta Severo e Silvia Buarque (Foto: Leo Ladeira

Silvia Buarque, única mulher no elenco, entrou de cabeça na proposta de interpretar uma mãe que no passado sofreu diversos traumas e durante um ato desesperado deu cabo dos três filhos e do marido. Segundo ela, esse se tornou um dos trabalhos mais expressivos de sua carreira. “Eu acho que é um texto que vai muito na contramão de tudo o que está sendo feito hoje, além de ser muito contemporâneo. Quando fiz a primeira leitura e descobri que minha personagem se chamaria Dolorosa, ali já fiquei impactada. A história dela é muito forte. Ela tem uma questão dramática e muito forte com a maternidade”, disse. “A Dolorosa é uma das personagens mais intrigantes que tive na minha vida. Com tanta densidade e tantas nuances”, adiantou a atriz.

Vista sob a perspectiva de Aderbal e do ator Felipe de Carolis, “Céus” questiona o que pode a arte diante do horror, e se materializa em cena como um grito final de desespero entoada pelos atores da peça. Apesar de estarem confinados em um bunker, os personagens ainda enfrentam as dificuldades de estarem longe de suas famílias e sem perspectiva de volta. A passagem do Natal e do Réveillon mostra que, em tempos de guerra, não há necessidade maior do que a paz. “O medo e a ameaça são questões dessa peça e do nosso tempo. São preocupações muito vivas do Wajdi, que mora na França e tem vivido um contexto de atentados, de terrorismo”, disse Aderbal. “Sobre essa peça, ele diz que é uma espécie de grito, uma explosão diante do medo, das crueldades de uma civilização que descambou para a barbárie. Esse grito é a expressão final diante do terror, das desigualdades e de todos os conflitos do contemporâneo. ‘Céus’ reflete sobre o medo e sobre os laços afetivos que tecemos”, explicou o diretor, que ainda fez um paralelo com as diversas formas que o terror também é disseminado em nosso país.

O elenco de Ceús: Rodrigo Pandolfo, Isaac Bernat, Silvia Buarque, Felipe de Carolis e Charles Fricks (Foto: Leo Aversa)

O elenco de Ceús: Rodrigo Pandolfo, Isaac Bernat, Silvia Buarque, Felipe de Carolis e Charles Fricks (Foto: Leo Aversa)

“De fato são vários atos terroristas que acontecem, que não matam 400 mil pessoas, mas que acabam eclodindo a cada instante. Quando você vê destruições em determinadas comunidades, geralmente reproduzida por jovens, é a forma que eles encontram para expressar suas insatisfações em um não-lugar para eles em nossa sociedade. A partir dessa margem, eles apelam para a destruição. Por isso precisamos observar que essa força também pudesse se tornar em algo muito legal”, completou Aderbal Freire Filho.

Serviço: Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104, Botafogo. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. R$ 80,00. Bilheteria: 15h/21h (ter. e qua.); a partir das 15h (qui. a dom.). Até 31 de outubro.

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