Teatro & Pensata

“Terceiro Sinal”: depois de mais de 400 horas de gravação, Sandra Delgado lança DVD com o processo criativo de quatro diretores teatrais

A documentarista acompanhou os ensaios dos diretores Aderbal Freire-Filho, Domingos Oliveira, Amir Haddad e José Celso Martinez Corrêa entre 2008 e 2010. Como nos contou, a ideia inicial surgiu da vontade de acompanhar os ensaios de "Hamlet", que estava sendo dirigido por Aderbal Freire-Filho em 2008

Publicado em 1 de agosto de 2016 | Por Julia Pimentel

E se a gente levasse uma câmera de vídeo para dentro do teatro, uma arte tão clássica e milenar? Pois bem, esse foi o projeto da diretora Sandra Delgado que foi documentado no DVD “Terceiro Sinal”, lançado essa semana no Rio de Janeiro. O trabalho, que foi exibido no canal GNT em formato de série, apresenta o processo de criação e os ensaios de peças de quatro diferentes diretores brasileiros: Domingos Oliveira, Amir Haddad, José Celso Martinez Corrêa e Aderbal Freire-Filho. E foi, inclusive do trabalho de Aderbal, que a ideia surgiu na cabeça de Sandra. Como a documentarista relembrou ao HT, o projeto começou com uma vontade de acompanhar o processo criativo do diretor no espetáculo “Hamlet“. “Eu achei que fosse ser um projeto importante, por isso resolvi pedir ao Aderbal para filmar. A partir desse primeiro processo, eu vi como um diretor trabalhava e, então, surgiu a ideia de acompanhar outros ensaios para conhecer como funcionava com diferentes mestres. Depois do ‘Hamlet’, eu vi como a figura do diretor tinha um papel centralizador”, disse Sandra sobre o projeto que ela vem fazendo desde 2008.

Aderbal Freire-Filho, Sandra Delgado, Renata Sorrah, Amir Haddad e Marcio Abreu (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

Aderbal Freire-Filho, Sandra Delgado, Renata Sorrah, Amir Haddad e Marcio Abreu (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

No entanto, apesar da iniciativa interessante e curiosa, a documentarista contou que não foi tão fácil entrar com um objeto estranho dentro dos ensaios. No primeiro momento, a câmera foi um elemento mal visto. “Entrar com a câmera no teatro é muito difícil. A gente sempre tem uma preocupação ética com tudo o que está ali, porque são momentos muito íntimos, delicados e de busca. Eu tive muito esse cuidado na hora de editar”, relembrou a documentarista que, após acompanhar os quatro processos, acumulou um total de 400 horas brutas gravadas que foram reduzidas a cerca de 40 minutos.

As atrizes Renata Sorrah e Marieta Severo foram prestigiar o lançamento do DVD "Terceiro Sinal" (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

As atrizes Renata Sorrah e Marieta Severo foram prestigiar o lançamento do DVD “Terceiro Sinal” (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

E, como primeiro diretor que foi acompanhado, Aderbal Freire-Filho concordou com esse relato da documentarista. Como confessou ao HT, o próprio diretor não gostou da ideia no primeiro instante. Segundo ele, a presença da câmera poderia atrapalhar a liberdade de expressão do grupo de atores. “Eu de fato acreditava que poderia não dar certo, porque a câmera seria uma presença estrangeira dentro dessa ilha de utopia que é o ateliê de ensaio de teatro. Eu achei que essa presença ficaria sempre como um olho indiscreto. Mas depois, com a presença da Sandra, que foi sensacional e teve uma incrível sensibilidade e participação de artista, eu vi que tudo deu certo. O resultado é sempre uma pequena mostra, mas, mesmo assim, o DVD é muito vivo e inteligente”, opinou o diretor que foi acompanhado por Sandra Delgado na peça “Hamlet”, de Shakespeare, entre fevereiro e julho de 2008.

Marieta Severo e Aderbal Freire-Filho (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

Marieta Severo e Aderbal Freire-Filho (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

Já o diretor Amir Haddad preferiu adotar uma outra estratégia para conviver com a presença da câmera. Após autorizar Sandra a gravar os ensaios do espetáculo “As Meninas”, entre maio e junho de 2009, Amir adotou o elemento estranho como um confessionário. “Quando você está em uma situação dessa, é melhor absorver do que ficar fugindo. Então, eu resolvi dialogar com a câmera. Eu comentava sobre os artistas, mostrava a cara que a atriz estava fazendo e explicava algumas partes da peça. Com isso, a câmera foi ficando inteligente e minha amiga. No fim, eu já sentia falta de dialogar com ela, que é uma máquina absolutamente discreta e que não ia espalhar para ninguém o que eu falei”, contou o diretor.

Aderbal Freire-Filho, Augusto Madeira e Amir Haddad (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

Aderbal Freire-Filho, Augusto Madeira e Amir Haddad (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

E Amir não foi o único a incorporar de vez o objeto cinematográfico aos ensaios teatrais. Domingos Oliveira disse que Sandra Delgado e sua companheira, a câmera, se integraram à peça “Do Fundo do Lago Escuro”, ensaiada entre fevereiro e maio de 2010, bem rápido. “Ela passou a fazer parte da equipe nos primeiros cinco minutos. Eu me acostumei a conversar com a Sandra durante todo o ensaio, e eu não via mais a câmera entre mim e ela. Quem desapareceu, nessa história toda, foi a câmera”, relembrou o diretor que já está acostumado a conviver com o objeto. Com uma importante carreira de cineasta em sua trajetória artística, Domingos disse que a presença da equipe nos ensaios não atrapalhava. Ou melhor, nem era percebida. “Eu tenho o maior respeito pela câmera. Eu sou cineasta e gosto da presença dela. E, na minha opinião, todo bom teatro moderno é cinematográfico e vice-versa. Eu falava com as pessoas da mesma forma com ou sem ela”, argumentou o diretor Domingos Oliveira.

Domingos Oliveira, Sandra Delgado e Priscilla Rozenbaum (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

Domingos Oliveira, Sandra Delgado e Priscilla Rozenbaum (Foto: Leo Marinho/Brazil News)

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