Teatro & Pensata

Jarbas Homem de Mello estreia o musical “Forever Young” dirigido por ele e no qual vive um idoso de 90 anos: “Quero me tornar um velhinho bem disposto e com saúde”

Sobre essa jornada dupla, o artista confessou que, no começo, achou que não daria conta. "Primeiro eu dirigi um outro ator no meu papel para ver como eu tinha que me posicionar em cena e só depois eu passei a ensaiar no meu próprio papel"

Publicado em 31 de agosto de 2016 | Por Julia Pimentel

Ele canta, dança, dirige, sapateia e ainda interpreta sua versão idosa. Em cartaz em São Paulo, no Teatro Fecomercio, Jarbas Homem de Mello brilha no palco do espetáculo “Forever Young”. O musical, de autoria do escritor suíço Erik Gedeon, conta sobre o dia de um grupo de seis idosos, todos com mais de 90 anos, que já foram grandes artistas, mas hoje vivem com suas limitações em uma casa de repouso. “A história é uma grande comédia. Esses velhinhos são todos muito felizes e animados e, na peça, eles são retratados com as diferentes dificuldades que possuem, seja de locomoção ou memória. O enredo do musical conta de um certo dia em que eles estão se confrontando. E ainda tem a enfermeira, interpretada por Fafy Siqueira, que tem a missão de cuidar dessas figuras”, disse Jarbas, que divide o palco com Claudia Ohana, Carmo Dalla Vecchia, Marcos Tumura, Paula Capovilla e o pianista Miguel Briamonte.

(Foto: Caio Gallucci)

(Foto: Caio Gallucci)

No espetáculo, que deve chegar ao Rio de Janeiro em janeiro de 2017, os personagens possuem os mesmos nomes de seus respectivos atores. E, para Jarbas, esse fator acrescenta e potencializa o caráter cômico da narrativa. Afinal, tratar a velhice e as dificuldades que chegam com a idade não é uma tarefa muito simples. “Eu acho que o barato do musical é, justamente, nós interpretarmos personagem que são 40 anos mais velhos. Se no elenco os atores estivessem com a idade desses idosos, não ficaria engraçado e, sim, dramático. Os velhinhos estão o tempo todo brincando com eles mesmos e com a vida que possuem. Não é um deboche, é uma brincadeira com o futuro. No meu personagem, eu faço um jogo interessante de composição de características que estão no texto original com traços meus mais acentuados. Eu acho que é uma grande sacada os personagens serem feitos por atores mais jovens e terem o nome dos próprios intérpretes”, explicou Jarbas que garante que não tem medo de envelhecer. “Desde criança eu sempre soube que ia viver muito. E, para isso, eu faço de tudo para cuidar da minha saúde, do meu corpo e da minha mente. Eu sempre soube que ou eu morreria jovem ou eu iria envelhecer. Então, eu prefiro envelhecer e me tornar um velhinho bem disposto e com saúde. Eu acho que tudo pode ser encarado com bom humor, e é assim que eu quero estar quando tiver meus 90 anos”, afirmou.

Jarbas Homem de Mello no musical "Forever Young" (Foto: Paprica Fotografia)

Jarbas Homem de Mello no musical “Forever Young” (Foto: Paprica Fotografia)

Um dos fatores que serão imprescindíveis para que o animado e cheio de vitalidade Jarbas Homem de Mello chegue bem à melhor idade são as atividades físicas que o ator faz desde a juventude. Além de interpretar diferentes personagens nos palcos, Jarbas ainda dança, canta e encanta. “Eu já só dancei, só cantei e só atuei. Mas eu confesso que não gosto muito. O que me desperta, de fato, é essa combinação de várias habilidades. O que me satisfaz é, justamente, fazer tudo ao mesmo tempo”, compartilhou o ator que, em “Forever Young” ainda assume o papel de diretor geral. “Então é uma loucura. Primeiro eu dirigi um outro ator no meu papel para ver como eu tinha que me posicionar em cena e só depois eu passei a ensaiar no meu próprio papel. Eu um momento eu achei que não fosse dar conta. Mas, quando fui para o palco, já tinha todo o espetáculo na cabeça, sabia exatamente cada posição e colocação. Isso ajudou a encaixar tudo de maneira mais rápida e deu muito certo no final”, avaliou o ator que, por trás das cortinas, ainda dirige os outros personagens que estão em cena.

O musical deve vir para o Rio de Janeiro no começo do ano que vem (Foto: Paprica Fotografia)

O musical deve vir para o Rio de Janeiro no começo do ano que vem (Foto: Paprica Fotografia)

Além da questão idade que norteia a peça, a trilha sonora é outro ponto que merece destaque. Com um repertório que levanta a plateia, Jarbas contou que as músicas são uma conseqüência da abertura criativa que o texto tem. Entre os sucessos cantados pelo elenco, estão hits das décadas de 50, 60, 70, 80 e 90 como “I Love Rock’n Roll”, “I Will Survive”, “Satisfaction”, “Imagine” e, claro, “Forever Young”. “Todas essas canções foram citadas no texto original do autor. Mas, como aqui nós apresentamos um espetáculo adaptado, acrescentamos músicas da cultura brasileira também. Assim como na Alemanha tiveram canções em alemão e na Argentina músicas em espanhol, no Brasil nós cantamos dois pout-pourris com composições para o musical e sucessos de Tim Maia, Chico Buarque e Raul Seixas. Assim, nós conseguimos dar uma abrasileirada e aproximar o espetáculo da nossa cultura”, explicou sobre o musical que demandou dois meses de ensaio e dedicação do grupo.

(Foto: Paprica Fotografia)

(Foto: Paprica Fotografia)

Mas colocar um espetáculo como esse em cartaz não é uma tarefa muito fácil. Além de toda a estrutura cenográfica que uma peça de teatro já requer, os musicais ainda demandam artistas multitalentosos, músicos, maestros etc. Sobre a mão de obra com habilidades para cantar, dançar e atuar, Jarbas Homem de Mello disse que está cada vez mais frequente e mais fácil achar jovens “completos”. “De 1999 para cá, os musicais começaram a ocorrer mais constantemente. Então, os atores que não tinham essas outras habilidades passaram a correr atrás do prejuízo e os jovens que estavam entrando para o mercado, já possuíam cursos com essas outras atividades. O musical está, realmente, virando uma indústria. Além dos atores, os músicos, técnicos e maestros estão cada vez mais especializados”, avaliou.

No entanto, o otimismo não é o mesmo quando o assunto é por o espetáculo em cartaz. Justamente por essa mão de obra mais especializada, fica ainda mais caro estrear um musical. “Tem muita gente envolvida. Por isso, hoje em dia não dá para colocar um musical em cartaz se não tiver incentivo de empresa privada. O ingresso não paga. Fora o custo, ainda tem a questão do valor da entrada. Aqui no Brasil a gente não pode cobrar mais de R$150,00 em um espetáculo, porque senão as pessoas não vão. E, para piorar a conta, ainda tem a questão da meia entrada. Então, aqui as pessoas pagam R$ 75,00 para ver um espetáculo com a mesma qualidade e proporção que um da Broadway, que custa R$ 300. Não adianta, a conta não fecha se não tiver o incentivo de empresas privadas. Por isso que os musicais só ficam uns quatro meses em cartaz. Ainda mais com a atual situação política e econômica do Brasil em que as empresas não estão tendo tanto lucro. Enfim, é muito difícil. Mas eu espero que melhore”, argumentou o ator e diretor Jarbas Homem de Mello.

 

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