Teatro & Pensata

Exclusivo! Um papo com Gustavo Gasparini, o homem por trás de musicais como “Gilberto Gil – Aquele Abraço”, “SamBra” e “Garota de Ipanema – O Amor é Bossa”

Prestes a reestrear como ator no monólogo shakespeariano "Ricardo III", ele falou sobre sua arte: " O teatro é o meu trabalho, minha politica e minha religião. Tudo o que eu penso está em cena"

Publicado em 19 de agosto de 2016 | Por Leonardo Rocha

Gustavo Gasparani (Foto:Divulgação)

Gustavo Gasparani (Foto:Divulgação)

Ator, diretor, produtor, professor… enfim, um artista brasileiro! Assim Gustavo Gaparani define sua trajetória de sucesso à frente e também por trás das cortinas do teatro. Sempre com um bom personagem nas mangas, ele se orgulha ao falar sobre a realização de um antigo desejo de fazer musicais em solo verde e amarelo. Além de ser um dos grandes nomes do bem-sucedido ressurgimento dessa modalidade no país, Gustavo também é um dos responsáveis pela criação da Cia dos Atores e, acredite, passista da tradicional escola de samba da Mangueira. Resumindo, um verdadeiro showman! “Faço parte de uma geração de atores focados no trabalho com o corpo. Tento unir a expressão corporal, a música e a dança com o prazer que sinto pelo texto em si”, revelou ao HT.

Acertando os últimos ajustes de iluminação para estrear “Garota de Ipanema – O Amor é Bossa”, no novíssimo Teatro Riachuelo, na Cinelândia, ele fez um balanço de como tem sido, mesmo que inconscientemente, costurar a história da música popular brasileiras em suas últimas produções.”Estou em cartaz com o ‘SamBRA’ que conta toda a historia do samba no Brasil. Já em ‘Gilberto Gil – Aquele Abraço’ (que fica em cartaz até domingo no Shopping da Gáveafazemos essa releitura da obra do Gil, que é MPB purinha na veia, e com o ‘Garota’ eu vou pegar o movimento que deu origem À MPB. A essa sigla, né? Eu nunca imaginei que pudesse falar tanto sobre música no teatro”, avaliou ele, que ainda adiantou o que o público pode esperar do novo espetáculo. “Os protagonistas são Thiago Fragoso e Letícia Perfiles  com texto de Telma Guedes e produção da Aventura. Diferente do ‘SamBRA’, onde conto o samba através de sua história, teremos uma ficção apresentada por esses dois atores, que nada mais é do que uma grande homenagem ao movimento da bossa nova e a cidade do Rio de Janeiro”, disse.

E falando em homenagens, Gasparani tem redescoberto discografias emblemáticas da nossa música e atores com quem faz questão de manter sob seus cuidados. Prova disso é o espetáculo “Gilberto Gil – Aquele Abraço”, que termina sua temporada carioca neste domingo e rendeu sete indicações ao Prêmio Bibi Ferreira, com o mesmo elenco do musical “Samba Futebol Clube”. “Mergulhar no universo musical do Gil foi tão transformador quanto ensaiar William Shakespeare e Anton Tchekhov. Foi um estudo muito profundo para entender a mensagem desse filósofo brasileiro. Ele é praticamente um filósofo através da canção”, adiantou. A peça discute grandes temas da obra de Gil e coloca em cena questões como o racismo, ditadura militar e até mesmo a liberdade sexual, com direito a um beijo apaixonado entre dois atores, aplaudido pela plateia na sessão vista pelo HT.

O atro e diretor vem se destacando em musicais de sucesso (Foto: Divulgação)

O atro e diretor vem se destacando em musicais de sucesso (Foto: Divulgação)

Mas muito se engana quem pensa que Gustavo deixou de lado a carreira de ator para se dedicar somente à criação de novas histórias. Sucesso de crítica e público em 2014, ele volta em setembro com o monólogo shakespeariano “Ricardo III”, desta vez em cima do palco do Teatro Poeira. “É um personagem muito sedutor. Ao mesmo tempo em que é um homem de crueldade enorme, ele tem humor. Mas, por conta da maldade, se torna constrangedor rir dele. É um riso meio nervoso”, afirmou Gasparani, que interpreta 21 dos 54 personagens do texto original. A peça de Shakespeare se passa no final da Guerra das Rosas, conflito que opôs as casas reais York e Lancaster, entre 1455 e 1485. Ricardo III, que governou de fato a Inglaterra, é um homem maquiavélico que faz tudo para chegar ao trono. O bardo retrata com exagero sua feiura, usada indiretamente para explicar a sua maldade.

O ator na peça "Ricardo III" (Foto: Divulgação)

O ator na peça “Ricardo III” (Foto: Divulgação)

Mostrando que é pau para toda obra, Gasparani é do tipo de pessoa que acredita no poder transformador de sua arte. Apesar de todas as dificuldades que a classe artística, assim como diversos setores, vem passando, ele afirmou que o palco se torna seu palanque ideológico. “Olha, ser artista e homem do teatro tem suas questões, mas é onde me expresso melhor. O teatro é o meu trabalho, minha politica e minha religião. Tudo o que eu penso está em cena. Como escrevo e dirijo tenho a possibilidade de externar minha percepção sobre homem, o país ou qualquer outro assunto em cena. O fato de fazer musical brasileiro e inédito já é um ato político”, avaliou ele, que escreve peças há mais de dez anos e confessou como funciona seu processo criativo. “Eu vou lendo textos e me inspirando. A partir daí começam a surgir questões e tudo flui naturalmente”, disse.

Parece que o processo criativo de Gustavo Gasparani é inesgotável. Também em cartaz com o espetáculo “SamBRA”, na Cidades das Artes, protagonizado por Diogo Nogueira, o ator e diretor ainda segue amadurecendo dois novos projetos como os musicais “BemSertanejo” e “Zeca Pagodinho – A Saga de um Herói Suburbano”. Sem muitos detalhes, ele adiantou como será a estética do projeto da nossa música de raiz. “Ele é mais parecido com a linha do ‘SamBRA. Vou contar a história do sertanejo no geral, porque esse ritmo tem uma historia muito mais teatral do que o samba”, adiantou ele, falando sobre sua relação com Zeca Pagodinho. “Eu adoro o Zeca. Ele é um dos meus ídolos pessoais e depois de conhecê-lo eu fiquei apaixonado pelo ser humano que ele é. O musical sobre ele conta uma história muito irreverente assim como ele é” completou.

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