Teatro & Pensata

Invadimos os bastidores de “Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical”: “É o cara que tem como vocação tentar melhorar a humanidade”, diz Cristiano Gualda

Apesar de não ser uma trama biográfica, peça costura a vida do músico com fatos históricos ocorridos no Brasil desde a época da Tropicália

Publicado em 15 de julho de 2016 | Por Leonardo Rocha

Comemorando 74 anos de vida e mais de 50 anos de carreira, Gilberto Gil é um dos artistas mais plurais do nosso Brasil. Nascido em Salvador, no ano de 1942, o cantor, fundador da Tropicália juntamente de Caetano Veloso e Gal Costa, cantou tudo aquilo que podia e o que não podia. Gil cantou tanto que em 1969 chegou a ser exilado pela ditadura militar, mesmo ano em que compôs o megahit “Aquele Abraço”, que simbolizou sua despedida do país e posteriormente foi gravado por ícones da MPB como Tim Maia e Jorge Ben Jor. Sua trajetória de vida é tão rica, que, apesar de muito singular, acaba costurando um pouco da história tupiniquim. Foi então que, a partir deste start, o dramaturgo e diretor Gustavo Gasparani decidiu criar o espetáculo “Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical”, que está em cartaz no Rio, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, com um elenco de primeira e multifacetado. Insiders que somos, o HT invadiu os bastidores dos ensaios da peça, já aplaudida em São Paulo, para bater um papo com os atores que se alternam em cena para entoar canções que alegram e emocionam o público carioca.

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Apesar de fiel à trajetória de Gil, muito se engana quem pensa que a produção se trata de uma biografia como estamos acostumados a ver no teatro. A peça é uma espécie de visita à obra musical do compositor que tem como intuito trazer uma reflexão social sobre as letras que estão por trás das canções do artista – sem ordem cronológica ou discográfica. São elas que dão o tom dramatúrgico aos 11 blocos temáticos que passeiam pela sua origem, o movimento tropicalista, a negritude, amor, religiosidade, tecnologia, futurismo, entre outros assuntos que marcam as composições. “Quando surgiu a oportunidade do Gasparani fazer esse tributo ao Gil, ele lembrou do nosso grupo, já que somos atores, cantores e instrumentistas, que além de estarmos honrados em participar, já trabalhamos juntos no espetáculo ‘Samba Futebol Clube’. Como o repertório do Gil é muito sofisticado, foi um grande desafio, porque a gente fica se revezando entre os instrumentos e as canções”, revelou o ator Cristiano Gualda, que ainda falou sobre sua relação com o artista homenageado. “Eu não tinha tanta intimidade com a obra dele. Para mim foi um processo de descoberta muito interessante, no qual eu mergulhei e hoje sou um grande fã”, contou.

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Luiz Nicolau revelou ter mais intimidade com o repertório do cantor baiano e se disse honrado em participar da produção. “O Gil sempre fez parte da minha vida e para mim foi um grande presente. Assim que o Gustavo nos convidou, eu fiquei de cara, porque sabia que íamos encontrar um material muito rico. Ele fala de todos os assuntos e todas são muito atuais. As músicas compostas na década de 60 estão super atuais. Ainda arrisco a dizer que estar em contato com todo essa discografia nos fez crescer enquanto artistas. Quando a gente sentou para começar os ensaios e nos preparar foi a maior choradeira. Desde criança eu ouvia esse cara e, aqui no palco eu me sinto muito em casa”, disse o ator.

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Mesmo dando sua benção ao projeto, Gilberto Gil não quis interferir em nenhum momento da criação, mas fez apenas um pedido: que não fosse um espetáculo autobiográfico. Por isso, nenhum dos atores em cena interpreta, de fato, o cantor. “O espetáculo trata basicamente de tempo, vida e morte, três temas que permeiam intimamente sua obra, que sempre se revelou atual”, adiantou Gualda. No entanto, Alan Rocha sempre é associado pela plateia à própria figura do cantor baiano. “Eu sou o mais parecido, mas a proposta é que todos sejamos o Gil, inclusive quem está assistindo”, explicou o ator, que na infância aprendeu a tocar “Palco” no violão. Ele, que já conheceu o artista pessoalmente, revelou que sonha agora em ver o músico na plateia. “Ele iria na estreia de São Paulo, mas choveu no Rio e o voo não chegou a tempo. A Nara e o Bem, filhos dele, já vieram e disseram que o pai vai gostar. Estamos ansiosos para que ele venha”, contou. No entanto, o clima entre os atores é tão descontraído que Nicolau logo soltou uma piada sobre a falta do homenageado. “O Gil não gosta de homenagem, na minha opinião, acho que o Caetano vai vir primeiro e depois vai contar para o Gil como foi, porque existe uma lenda de que o Caetano vê os filmes e conta para ele. Foi assim que surgiu a canção ‘Superbacana’“, brincou Nicolau.

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Em tempos de intolerância, sejam elas religiosas, raciais, sexuais ou políticas, o espetáculo “Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical” é um banho de civilidade aos mais retrógrados. Para o ator Luiz Nicolau, a obra do artista reflete uma consciência humana muito elevada. “Uma coisa muito legal é a contribuição cultural que o espetáculo traz para o Brasil. Porque ficou essa bagunça política que está acontecendo no país e parece que as coisas meio que se perderam. Não só os políticos, mas também a população. O brasileiro é um povo muito esquecido. Eu acho que estamos fazendo um contribuição artística e cultural. A gente está honrando a carreira de um dos maiores artistas da nossa cultura. Além da plateia sair feliz e animada, que pra gente é um sensação de missão cumprida, também tem essa questão da memória da nossa história”, avaliou ele, que foi encoberto pela fala de Cristiano Gualda. “O Gil nunca precisou ser politico. Acredito que a atuação dele na politica foi por uma questão ideológica. É o cara que tem como vocação tentar melhorar a humanidade. Esse mergulho que a gente fez na obra deixou muito nítido para todos nós. A obra toda dele é em prol do ser humano. Tentando fazer um mundo melhor”, completou.

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Multitalentosos, os oito atores em cena se alternam entre violões, guitarras, baterias e instrumentos mais refinados como o acordeon e o violino. Segundo os rapazes, esse trabalho os levou a um nível acima daquilo que estavam acostumados a fazer. “O ‘Samba Futebol Clube’ foi o embrião de tudo isso. A partir daí o Cris aprendeu a tocar trompete para este espetáculo, o Daniel (Carneiro) o Acordeon e eu me familiarizei com a percussão. O desafio é enorme, porque a sofisticação da música do Gil nos desafia o tempo inteiro. Isso acaba encantando as pessoas na plateia, porque elas vêem que, além de cantar, nós também estamos tocando tudo. E ao vivo”, ponderou Pedro Lima. “A música do Gil é tão rítmica, que, por muitas vezes, nos tira a atenção da profundidade da letra, e quando você descola a letra da melodia, você fica impressionado com a construção”, avaliou o ator. “Não só na parte musical que ficou claro isso, mas também na parte dramatúrgica é muito mais profundo. O cara fala sobre religiosidade, espiritualidade, negritude… de uma forma muito bonita”, disse.

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Ente músicas que permeiam o início do tropicalismo, a ditadura militar e a era high tech, o musical apresenta cenas, digamos, polêmicas para os mais conservadores. Em determinado momento, o ator Daniel Carneiro é desafiado a entoar na guitarra a canção “Se Eu Quiser Falar com Deus” completamente nu. Para ele, o contexto da história o deixou confortável para o trabalho. “A própria letra da música fala sobre isso. De estar despido para fazer uma oração. Foi diferente ficar sem roupas no palco, mas faz parte da história”, contou ele, que em outro momento troca carícias com o colega de cena Jonas Hammar. “Tem uma cena que eu faço com o Daniel, que a gente dá um beijo na boca e sempre causa reações diversas na plateia. Tem pessoas que suspiram e outras que não ficam muito confortáveis, porque acho que ninguém está esperando aquilo. É uma cena muito delicada por tratar desse tabu”, contou Hammar, que é surpreendido por Rodrigo Lima: “Eu acho incrível que esse tipo de coisa ainda seja uma polêmica hoje em dia. Não era a intenção, mas o beijo e o nu frontal, estão todos dentro do contexto”, ponderou.

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Falando da temporada em São Paulo, mesmo tendo sido sucesso de público na cidade paulistana, os meninos ainda confessaram que encontraram algumas dificuldades no início da temporada. Segundo eles, como o musical estreou no início das manifestações contra e a favor do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, o grupo acabou sendo hostilizado nas redes sociais, já que Gilberto Gil teve sua imagem associada por muitos anos ao governo do PT, do qual foi Ministro da Cultura. “A temporada em São Paulo foi um sucesso, mas gente foi muito hostilizado no inicio na nossa página do Facebook, porque as pessoas associavam muito a imagem do Gil ao PT”, destacou Nicolau. “É impressionante como o Gil está muito além desta questão partidária e extremista de direita e esquerda. Ele tem uma mensagem de paz e amor. Eu me sinto muito orgulhoso de estar passando essa mensagem tão mais além do que essa picuinha partidária” concluiu Rodrigo Lima.

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Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima são os atores-músicos que interpretam as canções de Gil na peça e que nos receberam com todo o carinho e paciência nos bastidores, antes de nos depararmos, no palco, com um espetáculo lindo, urgente e essencial. Se você está no Rio, corre lá!

Serviço: “Gilberto Gil, Aquele Abraço”

Quando: De 10 de junho a 21 de agosto –  Quinta, 21h; sexta, 21h; sábado, 21h; domingo, 20h
Onde: Teatro Clara Nunes – Rua Marquês de São Vicente – Gávea.

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