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Rico Dalasam comenta sobre seu primeiro disco, “Orgunga”, que discute o orgulho e a vergonha do jovem negro e gay brasileiro: “Eu quis falar sobre o que eu vivo”

Desde o final de junho, quando lançou o álbum, o rapper paulista disse que a aceitação do público tem sido boa. Para ele, é através da arte que conseguiremos discutir e abordar essas temáticas. "Fácil ou difícil, é o que temos e é dessa forma que precisamos usá-la para deixar que os nossos talentos cubram todas essas demandas", afirmou.

Publicado em 9 de agosto de 2016 | Por Julia Pimentel

A arte é sempre usada como expressão dos sentimentos e opiniões de uma pessoa. E, com ele, não podia ser diferente. Com letras carregadas de mensagens, o rapper paulista Rico Dalasam conversou com o HT sobre o novo trabalho lançado há menos de dois meses: o disco “Orgunga”, primeiro álbum de Dalasam, que é uma tradução de tudo o que o artista passou ao longo de seus 27 anos. “Desde o ano passado que eu venho trabalhando no “Orgunga”, que significa o orgulho que vem depois da vergonha. A ideia é que a gente consiga através dessas oito músicas escrever esse tempo que levamos até adquirir esse orgulho, que é suficientemente grande para que a gente possa superar vários obstáculos e várias questões. E, com esse sentimento positivo, sermos capazes de transformar essa matéria prima, que é a vergonha”, detalhou.

E essa discussão o artista conhece bem. Com toda a sua história de vida, Rico Dalasam acredita que esse dualismo, orgulho e vergonha, seja a maior luta do jovem negro e gay brasileiro. “No nosso país, assim como no mundo, a gente tem essa demanda de transformar a vergonha em orgulho para que possamos nos sentir melhor. Afinal, ninguém vai dizer para um jovem negro e gay ter orgulho de ser ele mesmo”, opinou Dalasam que, acompanhado a seu nome, sempre vem o rótulo de “primeiro rapper negro e gay do Brasil”. “Está tudo mais perto de eu querer contar a minha história do que eu retratar algo diferente. Eu quis falar sobre o que eu vivo, o que eu sou e o que esses meus 27 anos de vida me renderam. Esse disco é isso. Eu não estou falando de um futuro, e, sim, de uma trajetória”, completou.

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Para esse álbum, que pode também carregar o título de biografia de Dalasam, o rapper paulista disse que demorou de seis a oito meses para compor e produzir. E, hoje, com o sucesso de “Orgunga”, que o deu o título de artista de agosto de 2016 pelo Faro MPB, Rico Dalasam comemorou que sua mensagem esteja sendo entendida e aceita pelo público. “O que eu faço é novo no Brasil. As pessoas passam a seguir e entender as letras. Mas isso é um processo de absorção, e, surpreendentemente, tem sido rápido. Confesso que achei que fosse ser bem mais devagar. Eu agradeço muito a identificação e o carinho das pessoas com o que eu faço”, exclamou o artista que, com verdade e talento, conta a sua história através da arte.

Porém, nem tudo é só festa. Apesar de estarem sendo compreendidas pelo público, as composições de Rico Dalasam põem as pessoas para pensar sobre as atitudes e situações que passamos diariamente. Principalmente, a questão do orgulho e da vergonha que os negros e gays brasileiros, a exemplo do próprio rapper, enfrentam na sociedade tupiniquim. Sobre isso, Dalasam acredita que o tema está sendo discutido cada vez mais entre todos. “Assim como eu, outros artistas estão surgindo com essa mesma pauta. Eu acho que ainda vamos abordar bastante e por um bom tempo esse assunto. Mas, pelo menos no presente, isso já está ocorrendo. Eu não sei até quando vamos precisar falar disso até que esteja fixo no imaginário cultural nacional. Porém, enquanto isso não acontece, a gente vai falando e fazendo música, porque a arte liberta”, opinou o rapper que vê, justamente a arte como alternativa para as discussões sociais. “A literatura, a música, o teatro, o cinema e a dança são o que sobrou. Não haveria outro caminho senão o das artes. Fácil ou difícil, é o que temos e é dessa forma que precisamos usá-la para deixar que os nossos talentos cubram todas essas demandas”, completou.

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Mas não é só. Em tempos digitais, em que o mundo acontece nas telas e na palma de nossas mãos. Rico Dalasam reconhece o papel das redes sociais na atual sociedade. Segundo o rapper, a rede virtual é uma grande e importante ferramenta nos dias de hoje. “Se as pessoas usarem direito, essas informações alcançam outros usuários. A rede social é o poder. Em um mundo democrático, talvez elas sejam o maior fenômeno que tivemos nesse século”, opinou o rapper que, para o futuro, contou que ainda tem muitos planos para a carreira. “Tem mais clipe, mais música e um convite para um disco novo com um produtor de São Paulo. Às vezes, eu acho que a situação acalmou, mas isso nunca acontece. Eu estou sempre trabalhando mais, e é disso que eu gosto. Eu curto fazer música e quebrar norma. É isso”, completou o paulista Rico Dalasam.

 

 

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