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Destaque como cronistas, Gregório Duviver, Maria Ribeiro e Xico Sá comandam bate-papo descontraído sobre literatura no projeto ‘Você É o Que Lê’

Em debate descontraído, o trio foi convidado para atrair novos leitores; após a apresentação no Rio, o evento segue com novas edições em Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Porto Alegre

Publicado em 30 de setembro de 2016 | Por Leonardo Rocha

Representando a cena contemporânea de escritores de crônicas no Brasil, Gregório Duvivier, Xico Sá e Maria Ribeiro marcaram presença na Livraria Cultura do Cine Vitória, na Cinelândia, na última terça- feira, para dar continuidade ao projeto “Você É o Que Lê”. Após passar com sucesso por cidades como Salvador, Brasília e Paraty, ainda na Flip, o trio desembarcou na Cidade Maravilhosa com o intuito de conquistar novos apaixonados pela literatura, além de debater questões pertinentes sobre os novos rumos dessa cena cultural. O encontro seguiu com diálogos pra lá de descontraídos sobre a influência dos livros na infância e na formação dos autores, até a construção dos seus últimos títulos, além de provocar a reflexão sobre os formatos das redes sociais e novas mídias nesse ramo. E claro, o evento esteve rodeado de discursos contra o atual governo de Michel Temer. Pois bem, insider que somos, nós do HT estávamos lá para acompanhar esse grande encontro que contou com mediação da apresentadora Pamela Lucciola, e você fica sabendo agora tudo o que aconteceu por lá!

Gregório Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá (Foto: Divulgação)

Gregório Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá (Foto: Divulgação)

Para abrir os trabalhos, o jornalista Xico Sá fez uma leitura de um trecho do livro mais recente de Maria Ribeiro, o “Trinta e Oito e Meio”, e aproveitou para comentar sobre os preconceitos que a juventude ainda tem sobre os livros. No entanto, ele credita essa “culpa” às instituições de ensino. “Tornar a literatura muito séria prejudica muito o livro no Brasil, como uma coisa obrigatória, solene, ligada a grandes chatices. E o que projetos como este tem de bom é roubar a solenidade da literatura, mostrar que podemos falar do prazer de ler sem mesóclise, por exemplo. A literatura pode ir para o bar, a literatura pode ir para qualquer lugar”, opinou Xico, aplaudido pela plateia lotada com mais de 200 pessoas pelo teatro.

Entre os muitos tópicos abordados, o ator e multimídia Gregório Duviver falou sobre suas primeiras experiências com a leitura. De acordo com ele, é muito importante que os pais estimulem seus filhos ao exercício criativo da imaginação. “Quando eu era criança, eu lembro que meu pai contava histórias incríveis para mim antes de dormir. Eu ficava fascinado por aquele mundo lúdico. O engraçado foi que depois de anos, quando comecei a descobrir meus próprios livros, eu encontrei todo o repertório que ele me contava naquela época. Só que ele usava personagens lúdicos como ratinhos, cachorros e outros animais”, recordou o ator, que ainda falou sobre sua relação de amor e ódio com o mundo virtual. Para Gregório, os comentários nas redes sociais são totalmente desnecessários.

Os autores se reuniram em um papo na Livraria Cultura, no Rio (Foto: Divulgação)

Os autores se reuniram em um papo na Livraria Cultura, no Rio (Foto: Divulgação)

“Eu escrevo meus textos e posto nas minhas redes e na coluna e saio correndo. Não gosto de ver a repercussão do público, seja ela positiva ou negativa. Acho, inclusive, que não deveria haver espaço para a opinião do leitor no mesmo lugar que o texto do autor. Não que o leitor não possa opinar, ele pode, mas em outro espaço. Acho que isso influencia a forma com que as outras pessoas possam receber aquela mensagem ou opinião. Acontece uma influência de pensamento muito dura”, ponderou ele.

No entanto, no meio de toda essa discussão, a atriz e diretora Maria Ribeiro revelou ser uma grande entusiasta do mundo virtual, além de adiantar como funciona o seu processo de criação. Muito crítica de si mesmo, ela usa sua literatura como uma espécie de análise – mesmo que por muitas vezes negativa sobre ela. “Não me achava capaz de realizar uma boa escrita. Hoje eu olho para meu livro e penso: ‘é, até que eu sou uma boa escritora’. Quando eu não sei o que escrever, eu falo mal de mim. Sempre funciona. Todas as pessoas têm um lado B, sabe? E realmente tem crônicas minhas que eu mesmo me critico. E falo sobre a pessoa que eu gostaria de ser. Porque eu sou muito errante: tomo um pote de sorvete inteiro sozinha, fumo, tomo calmante e não tenho a menor paciência para outras crianças, que não sejam os meus filhos. Às vezes eu fico me detonado, mesmo porque pega bem. Tipo agora”, contou ela, tirando risos dos espectadores.

Maria Ribeiro (Foto: Divulgação)

Maria Ribeiro (Foto: Divulgação)

O projeto “Você é o que lê” nasceu na Bahia, com a premissa de aproximar ainda mais os brasileiros do hábito de entrar em contato com os livros e a riquíssima literatura do nosso país. Apesar de seguir em uma crescente, a população ainda sofre grande resistência de embarcar nos romances, crônicas, ficções e poemas. Para desmistificar essa suposta solenidade, os três representantes não deixam a peteca cair e atrairam a atenção de quem assistia, quase como uma apresentação de stand up comedy, só que sentados. E a tríade deu muito certo.  A troca entre Maria, Gregório e Xico é boa, mas tão boa que evento já segue com novas edições em Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Porto Alegre. E a turnê não para por aí. Eles ainda exploram as fronteiras da língua portuguesa em Portugal, Angola e Moçambique, seguindo pelas Américas na Argentina, Chile e Colômbia, até Nova York.

Xico Sá (Foto: Divulgação)

Xico Sá (Foto: Divulgação)

Seguindo nesse embalo, os últimos títulos dos autores também se torna destaque. Xico, que sempre teve fama de conquistador à moda antiga, revelou que o movimento feminista mudou sua forma de se expressar em suas publicações. Em “Os machões dançaram, crônicas de amor e sexo em tempos de homens vacilões”, o autor revela as mudanças de comportamento nas relações entre homens e mulheres do final do século XX até os dias de hoje. Em sua narrativa sobre a tragicomédia dos relacionamentos, ele entrega os segredos masculinos do cotidiano dos botequins sem esquecer a devoção permanente pelas mulheres, traço que tem marcado a sua escrita como um dos principais cronistas do país. “O desafio mais atual é fugir do politicamente correto. Não só na literatura, mas também no humor, na TV, na música… tem muita gente que confunde e acha que isso está chato, mas eu prefiro essa chatice. Quando você agride uma pessoa com palavras a gente esquece que aquilo pode ser fatal. O humor no Brasil nunca se preocupou tanto. Isso transforma as nossas crônicas ainda melhoras, porque vai haver o esforço de não ser só mais um sacaninha”, avaliou o jornalista.

Apesar de muito politizado durante o debate, Gregório também falou sobre seu último livro “Percatempos – Tudo que faço quando não sei o que fazer”, e ainda destacou que a perseguição das pessoas em tempos de intolerância tem feito o amor romântico descer por água abaixo. “As pessoas estão reclamando que eu só falo de política, mas eu também escrevo sobre outras coisas. Quando eu fiz uma crônica sobre o amor, também teve o seu lado politizado, da parte das pessoas. As feminazis ficaram falando que o texto era sobre um relacionamento abusivo. Gente, todo amor é abusivo por definição. Fui atacado porque falei sobre romantismo e elas disseram que o romance é uma coisa criada pelo homem para dominar a mulher. Eu me vi sem chão. Tem críticas que são muito difíceis da gente se posicionar”, avaliou ele, referindo-se ao texto publicado na “Folha de São Paulo”, direcionado para sua ex-namorada, a atriz e cantora Clarice Falcão.

O debate aconteceu totalmente descontraído (Foto: Divulgação)

O debate aconteceu em formato totalmente informal (Foto: Divulgação)

Sem perder tempo, ele  ainda comentou sobre os rumos do processo educacional no país. “A gente está no meio de uma situação difícil para caramba no nosso país e na nossa educação para o governo ainda tentar colocar educação física e arte como matérias opcionais. É um absurdo sem tamanho. São vertentes que fazem o ser humano criar um raciocínio crítico através do mundo. Mas é inevitável. Eu gostaria muito de não ter que falar sobre isso, mas é um assunto urgente”, comentou.

Já com seu “Trinta e Oito e Meio”, Maria Ribeiro embarcou na intensidade de sua fase pré-quarenta anos e comemorou a crescente feminina na literatura nacional. “Eu escrevo a crônica pensando em um processo bastante pessoal, mas, falando no sentido de analise freuidiana, tem muito de mim ali. É uma espécie de divã mesmo. Esse livro retrata a idade que eu tinha quando terminei de escrevê-lo. Foi um período muito intenso pra mim”, disse, comentando sobre o time de mulheres escritoras. “A literatura fala de uma época, mas sempre tivemos varias mulheres escrevendo como Raquel de Queiroz Clarice Lispector, mas certamente ainda estamos muito atrás dos homens”, constatou. “Mas estamos mudando esse jogo. Esse ano na Flip, pro exemplo, tivemos um número muito relevante de mulheres e acho que é uma crescente”, avaliou.

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