Arte & Literatura

Fabiane Pereira entrevista a chef Mariana Dahia Vidal, que está lançando o livro “Saboreando o Rio”. “A vida dá asas para quem se joga”

Nossa colunista de literatura conversa em clima íntimo de papo na cozinha sobre feminismo no universo da gastronomia, existencialismo, gordura e um pouco de filosofia. Vem que tá delicioso!

Publicado em 1 de agosto de 2016 | Por Junior de Paula

*Por Fabiane Pereira

Eu adoro a Bela Gil e suas receitas saudáveis embora eu não consiga sentir prazer ao comer um prato que substitua o bom e delicioso bacon pelo tofu. Por isso, o livro recém lançado da chef carioca Mariana Dahia Vidal, “Saboreando o Rio” (Editora Senac), fez meus olhos brilharem e minha boca salivar.

Conheço a Mari há muitos anos e observo de perto sua dedicação e determinação. Gosto muito da maneira como ela defende seus ideais e abraça os prazeres e as delícias de viver na Cidade Maravilhosa – que apesar de todos os problemas é exuberantemente linda. Então não me surpreendeu vê-la lançar seu livro de estreia com receitas deliciosas e nada light em um momento em que muitos chefs estão pregando, em programas de TV ou em publicações digitais e impressas, uma alimentação saudável, sem glúten e sem bacon. “A gastronomia tem vários nichos”, afirma convicta.

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Sócia do bufê 3 Na Cozinha, o preferido de muita gente “bonita, elegante e sincera” como as cantoras Roberta Sá, Ana Carolina, Maria Rita e Maria Gadú – esta é tão fã que assina o prefácio -, Mariana apresenta ao leitor um roteiro gastronômico baseado em suas memórias afetivas, com 35 receitas inspiradoras e inspiradas no “carioca way of life” que vai do bucólico passeio de bicicleta até a Vista Chinesa até um fim de semana em Búzios passando pela Casa Cavé, em Santa Tereza, da década de 70, entre outras lembranças de outrora.

“Saboreando o Rio” é simples como todo bom prato. Receitas como “Queijo Coalho Grelhado”, “Escondidinho de Rabada” (meu prato preferido do livro), “Salada Verde com Patê de Fígado e Pimenta-Rosa”, “Sanduiche de Rabanadas” (ge-suissss!!!), “Empada de Camarão” mais petiscos, bolos e sobremesas fazem parte da curadoria gastronômica da Mari.

Já estou contando os dias para os volumes 2, 3, 4…serem publicados. Depois de ler esta entrevista, tenho certeza de que você também vai querer saborear Lisboa, Madrid, Porto, Havana…

FP: Mari, você era advogada. Em que momento você percebeu que não estava feliz e “jogou tudo pro alto”? Conte-nos como foi esta fase de reinvenção.
MV: Foi no meu aniversário de 2008, quando eu fiz 36 anos. Eu fiz uma festa de aniversário lá em casa e nesta época o Rodrigo, meu marido, estava produzindo o CD da Maria Gadu.  A Maria cantou, todo mundo ficou de boca aberta. No final da festa eu me dei conta que não tinha convidado ninguém do escritório que eu trabalhava. Então percebi que minha vida e meu trabalho não conversavam mais. Precisava trabalhar enquanto vivia e vivendo enquanto eu trabalhava, unir os dois, sabe? E naquela época eu fazia muitas festas na minha casa, passava dias cozinhando sem achar que isso era trabalhoso. Eu amava.

FP: A gastronomia sempre fez parte da sua vida? Você sempre gostou de cozinhar ou foi um hábito adquirido por necessidade ou hobby?
MV: Sempre. Em 1998 eu fui morar em Washington DC, fiz mestrado em Georgetown e depois trabalhei num daqueles escritórios enormes de advocacia. Ali foi a minha escola de gastronomia. Tudo que eu sabia se multiplicou e eu realmente passei a alimentar as pessoas. Cozinhava de tudo. Lá eu via aquelas mulheres “mega” loucas, que viravam três noites trabalhando no escritório e achavam o máximo. Foi aí que eu fui percebendo que o “que eu queria ser” passava, sim, por muito trabalho, porém eu buscava uma vida mais “feminina”, com panelas, almofadas, casa cheirosa, marido. Isso não é ser sexista, pelo contrário, é entender a nossa alma. Eu hoje trabalho feito louca, mas vivo em um ambiente em que muitas mulheres, como eu, mandam e dão as diretrizes. Em um escritório de advocacia, os homens sempre levavam vantagem.

FP: Como surgiu a ideia de escrever o livro “Saboreando o Rio”?
MV: Eu ia fazer um livro mais ou menos nos moldes de um blog que eu escrevia na época. Aí, um amigo querido, que me conhece melhor do que eu mesma, disse que poucas pessoas teriam a capacidade de escrever aquelas coisas em inglês e em português como eu. Pensei então em falar um pouco do Rio que (pra mim) não existe mais, de restaurantes da minha infância, de tudo que constituiu a minha memória e me “ensinou” a cozinhar. Tudo se mistura! Veio a adolescência, as memórias de família, faculdade, virou um passeio gostoso, que acho que pode ser apreciado também por aqueles gringos que se sentem locais na Zona Sul do Rio.

FP: Numa época em que os chefs estão lançando livros e programas de TV pregando uma alimentação saudável e sem glúten, você lança um livro que vai na contramão de tudo isso. Você teve receio da crítica e da aceitação do público?
MV: Nunca tive receio. Na verdade sempre fiz o que eu queria, o que para mim era genuíno, sem me preocupar com essas coisas. Eu fiz um lance despretensioso, sem me preocupar com o que iam achar, se no restaurante tal estão fazendo assim ou assado. Acho que quando se quer muito seguir a “onda”, a gente sempre foge da verdade. A minha verdade, como eu, é intensa demais pra eu me preocupar com isso. A gastronomia tem vários nichos, e cada um vende aquilo em que acredita. Há 7 anos, eu comecei a buscar o meu lugar ao sol, comecei a colocar na roda as minhas receitas, aquilo que eu gostava, e muitas desses pratos foram servidas no bufê (3 Na Cozinha). A aceitação sempre foi muita boa para eu me preocupar com a moda! (risos)

FP: Quais são os reais sabores da sua vida?
MV: Certamente as minhas filhas, a minha casa e a alegria que eu e o Rodrigo conseguimos trazer para dentro de casa, pela música e pelos amigos. Sou muito feliz também quando um amigo – desses amados que merecem o mundo – contratam o bufê e a gente entrega uma festa linda. Isso não tem preço. A sensação de realização com esse trabalho é uma das melhores.

FP: Assim como em quase todas as profissões, na gastronomia também os chefs homens têm maior destaque do que as chefs mulheres (embora tenhamos premiadas chefs brasileiras).  Como você vê esta retomada dos movimentos feministas pela igualdade de gênero uma vez que o abismo de salário/prestígio entre homens e mulheres não exclui classe social.
MV: Na gastronomia, graças à Deus, isso nunca foi uma questão para mim. Sempre fui respeitada e, como disse, achei meu nicho por vender coisas que as pessoas queriam comprar. Na advocacia tinha muita diferença. Enquanto a gente se ferrava lá, entre babás, idas ao balé e gotas de Tylenol, os homens trabalhavam tranquilos, com o supermercado da casa feito por suas mulheres e muita tranquilidade para “voar” carreira acima.

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(Foto: Isabel Becker)

FP: O que mudou na Mariana que descobriu que podia viver de gastronomia pra Mariana, hoje, chef reconhecida e estabelecida num mercado tão competitivo?
MV: Eu me tornei uma pessoa destemida. Dia cinco, se eu não tiver, como empresária, o que eu preciso para pagar salários, eu vou me virar. Muitas vezes eu já acordei precisando vender uma quantidade altíssima de festas e terminei o dia com tudo vendido e tudo pago. Isso me deu asas. Já dei aula, fiz consultoria, sei que é só trabalhar. O Brasil está cansativo, mas a gente chega lá.

FP: Você reuniu em Saboreando o Rio receitas e boas histórias. Comida e afeto andam juntas desde que o mundo é mundo. Ficou alguma boa história/receita fora do livro por limitação de espaço? Se sim, conta uma pra gente.
MV: Ficou (risos). O meu marido achou o fim de uma história em Niterói muito “Lygia Fagundes Telles“, tipo um daqueles contos com o final quase macabro, e como meu primeiro “editor”, sugeriu que eu não contasse. Foi um dia que eu saí chorando da terapia (o meu terapeuta na época levou seu consultório de Copacabana para Icaraí, e com isso, tive que ir semanalmente para Niterói atrás dos meus problemas). Uma dia saí aos prantos da sessão, sentei numa praça, fiquei horas de papo com uma mendiga e depois de chorar todas as minhas pitangas com ela (rs) vi que ela tinha uma perna amputada. Saí de lá leve, enfim, uma besteira para o leitor, que iria resultar em um bacalhau da Gruta Santo Antonio, mas que teve um impacto enorme na minha vida.

FP: Dá pra comer bem e saborear boas receitas na correria das grandes cidades ou este é um prazer raro nos dias de hoje?
MV: A gente precisa respirar. Estou falando isso para mim mesma. Está complicado… Muita correria.

FP: Bons restaurantes no Brasil custam caro tornando-se um luxo pra maior parte das pessoas. É possível comer bem e fazer um almoço/jantar digno dos melhores restaurantes do país com pouco dinheiro? Se sim, qual das 35 receitas do seu livro, você nos indica?
MV: Tá difícil, Fabi. Tudo muito caro… Eu amo o camarão ao curry, a marmita de carne de peito da rocinha e o meu suflê. A base da receita dele é muito boa e você pode fazer com vários ingredientes que funciona super bem. Não precisa usar só queijo.

FP: Você tem uma trajetória de vida baseada em recomeços, que conselho você daria a uma mulher que quer recomeçar a vida sob outro aspecto (seja profissional, afetivo, pessoal)?
MV: O conselho? Se joga. Mesmo! A vida dá asas para quem se joga. Foi comprovado fisicamente por mim. (risos)

*Fabiane Pereira é jornalista, pós graduada em “Formação do Escritor”, sócia da Valentina Comunicação — empresa voltada para criação, divulgação e produção de projetos musicais e literários — apresentadora, roteirista, produtora e programadora musical do programa de rádio Faro MPB, da Rádio MPB FM.

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