Arte & Literatura

Da internet para as livrarias: Gabriel Pardal lança “Canibal Vegetariano”, obra que reúne as artes postadas na rede nos últimos dois anos

Para o autor, que tem o mundo externo e os sentimentos internos como inspiração, a atual agitação no cenário político é um "combustível" para a criatividade. "Quando eu era garoto e tudo parecia muito morno politicamente e socialmente, eu ficava pensando na arte produzida por Caetano Veloso nos anos 1960, por exemplo"

Publicado em 22 de setembro de 2016 | Por Julia Pimentel

Depois de dois anos de sucesso na internet, o baiano Gabriel Pardal lança o livro “Canibal Vegetariano”. Em uma obra que reúne dezenas de versos e desenhos sobre diferentes temas, o autor contou que o projeto surgiu de uma insatisfação pessoal. “O ‘Canibal Vegetariano’ é um projeto de desenhos e textos que eu acredito que seja considerado literatura. Eu comecei a fazer essas ilustrações há pouco tempo porque estava cansado de escrever e decidi incorporar imagens aos meus textos. A partir daí, comecei a postar os resultados na internet e o público passou a gostar e compartilhar. Isso começou a ganhar vida e forma e eu resolvi ir me aprimorando. A cada dia eu ia melhorando os meus desenhos e aprendendo enquanto eu produzia o que hoje é o ‘Canibal Vegetariano’”, explicou sobre o começo da obra.

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(Foto: Jorge Bispo)

E o título do livro de Gabriel Pardal já é um caso à parte. Embora no primeiro momento o autor tenha afirmado que não sabia a origem do jogo antitético de palavras que nomeia a sua obra, depois Gabriel usou a inquietação pessoal como motivo. “Não tem uma história para o significado deste título. Mas, para justificar a ideia, eu acho que o conceito vem de algo que eu me identifico muito que é o sentimento de inadequação. Eu sou de Salvador, moro no Rio de Janeiro há nove anos porque não me sentia adequado na Bahia. Mas também não sei de onde eu pertenço e nem se sou escritor, ator ou desenhista. E esse sentimento de inadequação está muito presente nessa expressão em que a pessoa precisa comer carne humana por ser um canibal só que ela é vegetariana”, detalhou.

Assim como o nome do livro partiu de um sentimento de inadequação, os desenhos produzidos pelo autor, na maioria, seguem a mesma regra. Embora as imagens complementem a expressão escrita de determinada arte, Gabriel Pardal explicou que, quase sempre, a inspiração inicial e a mensagem a ser transmitida vêm da escrita. “A arte é só a mensagem escrita com letras. A partir do momento em que eu comecei a perceber que o texto escrito com a minha letra formava um desenho, passei a adotar um pouco desta identidade”, contou Gabriel que segue o método mais simples de produção mesmo sendo adepto da tecnologia para divulgar o seu trabalho. “Todas as minhas artes eu faço primeiro à mão e só na hora de postar que eu escaneio ou tiro foto para poder passar para o computador”, explicou.

Com mensagens artísticas que variam desde sentimentos puros à política, Gabriel Pardal contou que a inspiração e a motivação para a criação seguem dois processos diferentes: interno e externo. “Às vezes pode ser uma discussão em um bar entre uma família ou o que está acontecendo na política que me despertam a escrever. O outro processo é interno que não tem nada a ver com o que está acontecendo lá fora. Desta vez, o que inspira são as minhas emoções e sensações”, relatou sobre o processo de criação do livro “Canibal Vegetariano” que, como destacou, a motivação externa segue a todo vapor em tempos de crises. “Quando eu era garoto e tudo parecia muito morno politicamente e socialmente, eu ficava pensando na arte produzida por Caetano Veloso nos anos 1960, por exemplo. Naquela época, ele e outros artistas faziam obras que falavam com a sociedade. E hoje, nós estamos vendo toda essa agitação política acontecer de novo, infelizmente. Mas para mim como artista, isso é uma maravilha e um combustível para criar do jeito que eu gosto, que é falando com a sociedade e com as pessoas. Eu acho motivador demais”, ressaltou.

E por falar nas redes sociais, Gabriel Pardal disse que vive uma relação de amor e ódio com as novas plataformas. Enquanto por um lado foi graças ao meio digital que o autor pôde compartilhar suas criações com centenas de pessoas e desta forma ganhar visibilidade, a partir do momento que algo é publicado na rede, o material passa a ser do mundo. Em relação aos créditos autorais de uma publicação que é repostada infinitas vezes nas redes sociais, Gabriel confessou que não liga muito. Para ele, é uma forma de jogar arte para todos e para o mundo. “Ao mesmo tempo que eu acho que é uma excelente invenção, porque proporciona o contato com o mundo inteiro, eu acredito que para muitos seja um risco que faz com que as pessoas fiquem bitoladas no universo virtual. Enfim, eu acho que tenho uma relação muito saudável com essas plataformas digitais. Eu não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens. Por isso, eu entendo a ferramenta como bastante poderosa”, argumentou o autor que destaca o imediatismo como ferramenta e característica do seu trabalho.

Gabriel Pardal no lançamento do livro "Canibal Vegetariano" (Foto: Julia Pimentel)

Gabriel Pardal no lançamento do livro “Canibal Vegetariano” (Foto: Julia Pimentel)

“Eu faço e, na mesma hora, já publico. Por isso, o tema é sempre muito quente. Eu acho que desta forma é a melhor maneira de lidar com a criação que é muito inédita, graças à internet. Esse imediatismo é muito importante para mim também porque antes eu escrevia durante meses até publicar algum material. Esse é um processo que só existe na internet. porque passamos meses ensaiando uma peça antes de apresentar, passamos meses escrevendo um texto antes de publicar, e com o Canibal é diferente, eu faço, publico, e vou entendendo junto do público todos os significados que o trabalho pode ter. Vou entendendo o que estou fazendo enquanto faço”, disse.

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(Foto: Jorge Bispo)

Mesmo com um processo de criação baseado em duas frentes e uma proposta de imediatismo em publicar a arte assim que terminar, Gabriel Pardal disse que não fica preocupado ou se cobrando em fazer determinados números de posts por dia. Como explicou ao HT, a quantidade de artes produzidas pode variar e isso não é visto como um problema. “Não tenho que seguir um determinado números de trabalhos por dia. Mas eu entendo que o trabalho de escritor é escrever e do artista é de criar arte. Então, eu faço isso todos os dias. Para mim, não existe essa filosofia de esperar a inspiração ou ir à praia para buscar ideias. Todo dia eu paro para trabalhar e postar é uma consequência disso”, declarou.

De fato, “Canibal Vegetariano” é uma obra muito rica que fica ainda mais completa quando entendemos os bastidores e a forma como foi produzida. Mas além de todos os processos já contados, a pluralidade artística de Gabriel Pardal também aparece no livro. O baiano com alma de carioca combina a produção criativa de seus textos imagéticos com a carreira de ator. Nesta faceta, Gabriel Pardal brilha no teatro e no cinema. “Para mim, tudo vem do mesmo lugar, não consigo diferenciar a inspiração e a carreira de escritor, de desenhista e de ator. O que eu aprendo no processo criativo como ator, eu coloco na inspiração para escrever e vice-versa. Depois de rodar em diversos festivais com o longa ‘Tropykaos’, em que eu faço o protagonista, agora nós estamos negociando a distribuição para que em breve o filme estreie nos cinemas. Já no teatro, eu estou com um projeto de peça, mas que ainda não posso contar”, disse o misterioso e bem-humorado artista Gabriel Pardal.

Gabriel Pardal em "Tropykaos" (Foto: Reprodução)

Gabriel Pardal em “Tropykaos” (Foto: Reprodução)

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