Arte & Literatura

Analu Nabuco inaugura a expo “Primeira Matéria” no Centro Cultural Cândido Mendes: “São objetos muito simples, que com sensibilidade se tornam arte”

Com alma de colecionadora, a artista plástica recolheu tudo que lhe cruzou o caminho e despertou seu interesse. Por meio da técnica de assemblages, ela exercita sua liberdade de criação unindo objetos simples e únicos

Publicado em 11 de agosto de 2016 | Por Leonardo Rocha

A artista plástica Analu Nabuco sempre teve um olhar generoso para objetos que caíram no esquecimento e foram deixados de lado por seus donos. Sejam eles um simples pedaço de madeira marcado pelos dias de chuva, ou uma antiga tesoura cega e enferrujada que já não corta mais. Com alma de colecionadora, Analu recolheu tudo que lhe cruzou o caminho e despertou seu interesse. Fosse durante um passeio na praia ou uma corriqueira voltinha pelas ruas barulhentas do Centro do Rio. Pois bem: a partir desta prática e desta aptidão para perceber a beleza e a utilidade no que antes era só descarte, surge a exposição “Primeira Matéria”, que ocupa a galeria Maria de Lourdes Mendes de Almeida, no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema. Em entrevista exclusiva ao HT, a artista contou de onde surgiu a inspiração para sua mostra individual.

Analu Nabuco (Foto: Divulgação)

Analu Nabuco (Foto: Divulgação)

“O conceito surgiu através da técnica de assemblagem, onde objetos sobrepostos se transformam em uma peça única. São coisas que me surpreendem, me chamam a atenção e falam comigo. Esses objetos surgiram por acaso na minha vida, geralmente, durante algumas caminhadas. Tudo o que eu observo e se torna objeto de desejo eu carrego comigo para o meu ateliê. É uma espécie de colecionismo. Eu só sei o que uma das obras vai representar a partir de quando começo a reconstruir. O engraçado é que são objetos muito simples, mas que com sensibilidade se tornam puramente arte”, explicou.

A madeira sustenta a grande maioria das mais de 2o peças que integram a exposição. São obras de diferentes tamanhos que apresentam um equilíbrio próprio em cada forma. Em conjunto, revelam as relações entre objetos de múltiplas funcionalidades, propondo um novo olhar sobre eles. “O ato de colecionar algo encontrado ao acaso, sempre me interessou muito. Esses objetos achados são imediatamente incorporados e transformados. Faço com que meu olhar circule livremente buscando outras formas de combinações que somadas desenvolvem uma poética própria para cada obra. Acho a madeira um material fascinante”, disse Analu sobre seu processo de criação, que ainda descartou qualquer flerte com a moda da sustentabilidade. “Não é uma questão ideológica. Reciclagem é atividade para lixo. Na expo a gente resgata peças que ganham novos formatos e uma nova alma”, constatou.

Obras feitas pela técnica de assemblagem (Foto: Divulgação)

Obras feitas pela técnica de assemblagem (Foto: Divulgação)

Por meio da técnica de assemblages, hoje seu centro de pesquisa artística, Analu Nabuco exercita sua liberdade de criação unindo objetos simples e únicos como galhos de árvores e pedaços de cordas, criando uma terceira entidade em forma de arte, como descreveu Paulo Sergio Duarte, curador da mostra. “Diante do estardalhaço contemporâneo, não falta coragem aos investimentos estéticos de Analu, ao recorrer a um procedimento tipicamente moderno e usando uma escala íntima, poderíamos mesmo dizer, até doméstica”, avaliou ele, que também garantiu que o trabalho da artista vai na contramão da onda de obras tecnológicas e que causam estranheza ao público. “É como se esses objetos de arte vivessem quietos e felizes numa discreta existência”, concluiu.

Mesmo com uma mostra minimalista e artesanal, Analu acredita que o olhar do consumidor de arte se transformou com a chegada das redes sociais, mas, no entanto, sua forma de criação continua a mesma. “Eu acho que tudo tem seus dois lados. Com a internet você pode atingir muito mais pessoas e fazer uma divulgação muito melhor, mas ainda acho que no resto continua igual. A sua linguagem como artista e o conceito do que tudo é arte continua o mesmo. Eu não mudei minha forma de trabalhar por isso, sabe? Talvez a expressão das pessoas que se tornou um pouco mais consumista e diria até apurado para observar os movimentos estruturais de obras”, avaliou.

Objetos foram recolhidos durante caminhadas da artista (Foto: Divulgação)

Objetos foram recolhidos durante caminhadas da artista (Foto: Divulgação)

E falando em estrutura, será que a crise política e econômica que enfrenta o Brasil também abalou o ramo das artes plásticas? “Acredito que não. É uma situação difícil, mas costumo dizer que viver de arte é um sonho. Minha arte, minha parte”, disse ela, que também deu dicas de como estruturar uma carreira em seu ramo. “Você precisa ter uma estrada e um currículo interessante para chegar a um mostra individual. A gente não tem que buscar apoio em incentivo público. Não acho que a arte seja uma coisa gratuita. Ela sempre vai causar algum impacto ao espectador”, finalizou.

Serviço:

Onde: Galeria Maria de Lourdes Mendes de Almeida, no Centro Cultural Candido Mendes, Ipanema. Rua Joana Angélica, 63
Quando: Até 9 de setembro. De segunda a sexta, das 14h às 20h; sábado de 16h às 20h.

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